domingo, 19 de fevereiro de 2017

As Perguntas que deveriam incomodar



Nesses tempos de política que se afirma “pós-ideológica”, os protestos não são dotados de propostas concretas, passam a ser manifestações formadas por indivíduos incapazes de se perceberem em uma totalidade: “Para que serve nossa apregoada liberdade de escolha quando a nossa única decisão possível deve se dar entre obedecer as regras e uma violência (auto)destrutiva?” (Zizek, 2014, p. 70).
Exemplo perfeito disso são as manifestações de 2013, onde o povo, massificado e em toda a sua heterogeneidade saiu às ruas para manifestar indignação. E é isso, manifestar indignação. Mas isentas de sentido? Será mesmo? A questão é simples? Lutavam, talvez, por um meio de se constituírem enquanto “problema a ser resolvido” de forma urgente, a violência dos black blocs lhes permitiu ser mais que uma terceira página de jornal, mesmo que estes integrantes das manifestações tenham sido usados para deslegitima-las de alguma forma ou, também, como “minoria a ser desprezada”, como “bárbaros” que não devem ser seguidos, de alguma forma os black blocs de 2013 serviram para que o governo Dilma ditasse a moral dos protestos, o pacifismo deveria ser regra, a violência não seria tolerada. Seria isso, em si, uma forma de violência, um contra ataque realizado no campo da linguagem, porém vendido como não violência, como que “violentos não somos nós, são eles”. Sem a dimensão disso, se deram os momentos que apontaram para a “domesticação” das jornadas de junho, como o dia 21 de junho de 2013, em que milhares de indivíduos se sentaram nas ruas para demonstrar que “não são agressivos”, os meios de comunicação logo se aproveitaram disso, vendendo a notícia como: “Manifestantes de Santos 'deduram' vândalos sentando durante protesto” (Lopes, 2013). Embora essa fosse uma demonstração de que o governo Dilma (E PT) estava começando a ser minado, nesse primeiro momento a Globo contribuiu com o governo nessa jogada midiática. Percebam ai, então, o erro: O pacifismo e a “negação da violência” aqui é PURAMENTE IDEOLÓGICA e, mais que isso, uma retaliação política.

Talvez isso de lutarem se mostrando como “problema a ser resolvido” ou demonstrando sua presença tenha sido feito inconscientemente, muito provavelmente o foi, porém, há algo de novo no front; os protestos subentendem que não se pensam mais em utopias totalizantes, ao mesmo tempo que demonstram que o modelo ocidental de democracia encontra-se cheio de falhas, essas manifestações servem, então, como “sintoma de algo”, mas algo que deve ser resolvido dentro do sistema vigente, os manifestantes não formulam, nem formularam naquela época, as mudanças, na verdade exigem isso dos políticos contra os quais afirmam lutar.

A armadilha está ai, no mito do pós-ideológico...
O Capitalismo é global em extensão e economicamente, mas não na construção de um sentido ou daquilo que Slavoj Zizek chama de “cartografia cognitiva” (ZIZEK, 2014, p. 71), que é a capacidade dos indivíduos de, cartograficamente, perceberem o mundo em sua complexidade sistemática e perceberem-se nessa realidade, isso se dá pelo excesso de imagens sobrepostas pela simplificação dos sentidos (Consumo,logo sou). Além do mais, o capitalismo vive de uma abstração grosseira, a sua globalização é um livre trânsito de coisas e investimentos, não livre trânsito de pessoas, tampouco todos podem usufruir dos benefícios dessa globalização, existem nações inteiras a margem, cuja única responsabilidade é exportar matérias primas e fornecer mão de obra baratíssima para empresários de países desenvolvidos, nesse sentido o capitalismo se vende com uma lógica fria e de um racionalismo econométrico grosseiro, não importa o impacto social e ecológico causado pelo capital, o retorno precisa ser garantido, não constarão nos gráficos das grandes transnacionais as condições de vida dos trabalhadores em países de terceiro mundo (Em um post futuro explicarei o motivo de eu ainda usar essa expressão), mas apenas a renda advinda do capital e o “crescimento”. Logo, o capitalismo se vê platônico, não-ideológico, racionalista e mecânico, essa fase do capitalismo em que vivemos fortaleceu-se após o fim da Guerra Fria e a derrocada do “socialismo realmente existente” (HOBSBAWM, 2011, p. 363) permitiu ao capitalismo um discurso naturalizador de “única forma possível”.
Assim, em meio a perca de sentido, a violência dos protestos transformam seu “meio em sua mensagem” (ZIZEK, 2008, p. 73), uma demonstração de impotência, onde não de veem alternativas de transformações que realmente abalem o sistema vigente, as pautas focam-se em problemas específicos administráveis pela política burguesa, os indivíduos que se imagem pós-ideológicos, por sua vez, querem mais espaço no capitalismo (Representatividade), diluem-se os sentidos, fortalecem-se os imediatismos. Mas como tornar o capitalismo humano se este vende-se como abstração e precisa da desigualdade? Como transformar esse sistema que vê nos movimentos sociais apenas mais um público alvo e procura tirar destes o “recorte de classes” (LGBTT’S tendo Lady Gaga, Madonna e outras “divas pop” comerciais como exemplos máximo, quando estas tem pouco ou nada a ver com as vivências e problemas sociais dos LGBTT’S menos favorecidos economicamente)?
São perguntas que deveriam incomodar...

Referências
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos, 2ª ed., Companhia das Letras, São Paulo, 2011.
ZIZEK, Slavoj. Violência, 1ª ed., BoiTempo Editorial, São Paulo, 2014.
LOPES, Alexandre. Manifestantes de Santos 'deduram' vândalos sentando durante protesto [Online], disponível in < http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2013/06/manifestantes-de-santos-deduram-vandalos-sentando-durante-protesto.html> acesso em 19 de fevereiro de 2017.





SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com



                                       

Nenhum comentário:

Postar um comentário