domingo, 29 de janeiro de 2017

Toda Poesia ao Povo - Alexandre Lucas (Resenha)




    PS. Dei férias de um mês a mim mesma, estava a beira de um esgotamento nervoso, mas volto, revigorada, aos meus posts semanais de segunda feira... Agora, vamos a crítica:

Imagens do cotidiano, a fúria e a tristeza de um poeta que cresceu na marginal comunidade do Gesso, no Crato, onde pessoas de todas as idades tem contato com a produção artística por meio do Coletivo Camaradas, coletivo do qual o Alexandre Lucas, escritor do livreto Toda Poesia ao Povo, é membro fundador. O Coletivo Camaradas faz um trabalho de empoderamento por meio da arte, não é caridade, é a crença na habilidade do fazer artístico dessas pessoas, assim sendo, O Coletivo Camaradas constrói-se como plataforma para os artistas do Gesso por meio de eventos e intervenções.
A vida e a militância no Gesso transformaram Alexandre Lucas em um apaixonado pelo lugar, mas não um ufanista, ele não romantiza a degradação da comunidade, pelo contrário, abomina-a, mas sua paixão pelas pessoas o faz transformar o Gesso na sua capital da arte no Crato. Seus versos transbordam furiosa indignação, mas também ternura, refletindo a ambiguidade de seu sentimento de repúdio ao estado do espaço versus amor aos indivíduos que ali vivem. Parece perguntar a todo o tempo: Como podem estas pessoas viver neste estado?
Porém, Toda Poesia ao Povo não é vitimização, em meio a decadência e a pobreza nasce e cresce a vida, as crianças brincam nas ruas, os adultos trabalham e voltam para casa pela tarde, o dia é barulhento e a noite as conversas de calçada se fazem ouvir.



Sou do Gesso
Cresci ente rochas e vagões
Trilhos, areias e mato
Escutei orquestras de cabarés
Vi jogos de bola e tapas
Soltei pipas, bilas e traques
Assisti aos voos dos urubus
Sobrevoando carniças e lama
Brinquei no campo sem horizontes
Ouvi o trem e senti a trepidação
Bingos, bicicletas, lutas e sonhos
Couros, facas e colas
Tesouras, panos e revistas
Batuques, nunchakos e ninjas
Carros de flandes e castelos de areia
Porcos, torresmos e gritos
Brigas, rezas e mortes
Amores e conquistas
Corrida no telhado
Quadrilhas e fogueiras
Povoam a paisagem das minhas
Lembranças
Na beira do Gesso.
(poema 13 de Toda Poesia ao Povo, de Alexandre Lucas)

Apesar de seu tom claramente político, que fica evidente em diversos poemas da Coletânea, o que transparece é o artista dividido pela indignação e pelo amor, entre a nostalgia e a raiva, rasgado entre a depressão e o amor pela vida. Toda Poesia ao Povo é o poeta encontrando, desconstruindo e remontando o seu lugar no mundo em seus versos, tão dicotômicos quanto as contemporaneidades não coetâneas da cidade do Crato, os contrastes urbanos dessa urbe do cariri, autodeclarada cidade da cultura, perpassam os poemas de Alexandre Lucas e, quem sabe, sua própria psique.
Toda Poesia ao Povo não é panfleto, não é uma simples denúncia, como pode se supor pelo título escolhido pelo poeta do Gesso, mas é a voz de uma comunidade que em meio a pobreza de um bairro historicamente excluído cria vida, conta vivências e sobrevive. Alexandre Lucas traz para fora a beleza em meio ao caos, desfaz e refaz a ordem, expõe a relação dialética entre indivíduo e espaço, mostra que o bairro onde nasceu é parte de si mesmo e admite, belamente, que este pedaço é, talvez, o que lhe há de mais precioso.

A poesia se partiu
Pelas ladeiras altas
Entrou pelos becos
E se perdeu na porta do boteco
Aproveitou para se embriagar
Embolou a língua e as pernas
E se fez pensar.

(Poema 24 de Toda Poesia ao Povo, de Alexandre Lucas)




SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com






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