quinta-feira, 8 de setembro de 2016

NEGÓCIOS À PARTE

A cidadania plena só pode ser atingida através da arte, única ferramenta capaz de mudar a visão de mundo. (Boal, 1991).


Somos amigos. Tava atravessano uma pinguela e escorreguei. Quando ia caino ele me segurô. Foi assim que a gente se conheceu. Meses depois nos vimos outra vez e batemos um papo legal. Mais um mês depois, eu acho, talvez dois, a gente se esbarrô no cinema e após o filme fomos comê alguma coisa. Eu, ele e as menina que a gente levô. Ele tava sem grana então banquei a coisa toda. Fiquei sabeno depois que nem almoçado aquele dia ele tinha. Uai! Ele foi no cinema porque mulhe, cê sabe, né. Teve que guardá o dinheiro do almoço pro filme. Não me lembro que filme era não. Tava mais interessado em amassá a menina que no filme. Rss. Ele tava desempregado. Foi bom ver ele, acho. Uma semana depois ele lamentô em meus ombro o fim do namoro. Fiquei contente não sei porque, mas consolei ele dizendo que mulher é que nem biscoito... come uma e depois mais oito... Rss. Eu também passei por maus momento e ele me ajudô também. Fomos ao futebol várias vez. E jogamos um monte de pelada junto. Bons companheiros. E assim nossa amizade foi cresceno. Mas é claro que somos amigos... Ou fomos, sei lá. E a nossa amizade foi ficano maior e a gente se conheceu. Amigos íntimos. Bem, amigos mesmo, de intimidades. De verdade. É! Mas ele é gringo. Veio pro Brasil moleque, na época de conhecê as meninas. Rss. E o seu país, Paraguai, exporta muito pra cá. E ele começou a sê muambeiro e foi ficano cada vez mais conhecido no pedaço. Ele é bom de lábia. Sabe encantá as pessoa. Me encantô! E estava concorreno com nós. E o chefe... Meu chefe? Uai, meu chefe é o Azul Bamba. Cá pra nós... Acho ele, o Bamba, meio bambi. Rss. Também pudera. Gostá das azulinha... Rss. O chefe? Bem, o chefe mandou apagá-lo. Eu não queria. O cara é camarada. Só que amigos, amigos, negócios a parte. Sim! Eu fiz isso. Apaguei ele. Por quê? E ainda pergunta? Ai! Aiai! Ta bom, desculpa. A gente era amigo, mas ele tava dando preju, ora. Eu fiz assim: Fui. Chamei ele para umas cerveja e depois uma esticada. Vamo nos encontrá com umas menina, falei. Aí. Bem, enquanto távamos pra começá o bem bão eu “pá”. Uma só, certeiro no peito. Seu olhá tá gravado nos meuzói. Ele desceno na cama. É, desceno. Não desabô não. Tava sentado e deitô lentamente, acho. Não sei. Acho. Ajoelhei. Peguei sua mão. Dei uns soluço. E com sua mão ainda na minha sentei ao seu lado. Uma lágrima escorreu do meu ôio e caiu no rosto dele. Mas aí foi demais. Chorá purômi? Mas chorei. Tenho vergonha de tê chorado, mas confesso. Chorei! Para um hômi que nem eu, nada é pior que chorá, principalmente por hômi, mesmo que seja amigo. Bem! A lágrima caiu no seu rosto, já disse, e aí ele parô de respirá. Continuei segurano sua mão. Mas já não tinha lágrima mais não. Nem sequer um soluço. Mas continuei segurano sua mão. A esquerda, mais perto du coração. Beijei ela. Ta olhando o quê? Acha beijá a mão diômi pió que chorá? Acho os dois muito esquisito, mas fiz. Não sei porque. Depois levantei. Saí. Ocês ouviram o tiro. Ah! Foi alguém no motel que falou pro cês. Bem. Agora tô aqui. Conceis.

Na minha cabeça a estória acontece no seguinte cenário:
De uma a quatro horas da manhã; sentado sobre um caixote de madeira; sem camisa e com mãos algemadas para trás numa sala escura da Delegacia confessando para três policiais.

Gabeira – “... Dentro da casa estabeleceu-se que iríamos contar o que havia ocorrido para o Embaixador. A gente procurou dialogar todo o tempo com ele e em momento algum o enganamos. Até torcíamos juntos. Quando o manifesto saiu fomos correndo pra lá: ‘Saiu o manifesto’! Nós e ele íamos ficando cada vez mais salvos”.
Ziraldo – “Vocês ficaram amigos?”.
Gabeira – “Claro. A gente não queria matá-lo e ele também não queria morrer”.
Ziraldo – “Vocês elegeram um executador?”.
Gabeira – “Não, era o cara que estivesse de plantão”.
Ziraldo – “E se fosse você?”.
Gabeira – “As vezes imagino isso, mas creio... era o que eu tinha que fazer, n锹.

Aí, você que me lê, eu te pergunto: Ferramenta de mudar o mundo é executando ou fazendo arte? Não sei sua opinião, mas gostaria de ouvi-la, seja qual for, nos comentários do blog. Mas a minha opinião é apresentada no que sou: aRTISTA aRTEIRO que se expressa ad substantiam.

BOAL, A. O teatro do oprimido e outras poéticas, políticas. Civilização Brasileira. São Paulo, 1991.

¹ Trecho d’A Entrevista do Pasquim (Entrevista realizada em Paris, em fins de outubro de 1.978, e publicada no Pasquim nº 490, de 17/11/78) e que retirei da publicação “Pasquim apresenta: Fernando Gabeira” – editora Codecri – 3ª edição – e que me inspirou o cronto acima.


 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista; professor de Português, Literatura e Artes. Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras. A data em que o original foi escrito está perdida, mas foi retrabalhado entre os dias 05 e 08 de setembro de 2016.

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