segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Coletivo Empresa





O texto que se segue é uma generalização

Coletivo Empresa...

É com essa referência ao ótimo filme italiano, Pai Patrão, dos irmãos Taviani eu inicio este texto. Meu recorte será apenas a região na qual vivo, o Cariri, assim sendo, os Coletivos de outros locais estão isentos deste petardo que lanço à ética dos grupos artísticos, mais do Juazeiro do que do Crato, na verdade.
Os artistas, ao entrarem em Coletivos, visam receber apoio e se desenvolverem em contato com outros artistas, isso é fato. Coletivos são grupos de resistência, e orgulham-se disso: A arte não é valorizada, então é melhor ser um artista em bando do que sozinho. É nesse pensamento análogo ao pensamento corporativista que os Coletivos se constituem, mas o que pensar quando os Coletivos, que pregam, em sua própria estrutura, a liberdade, o experimento e a igualdade, transformam-se em algo que funciona dentro de uma lógica voraz? Onde o “nome” é posto em primazia em detrimento do talento? Quando as reuniões se tornam um “Por que não faz igual a mim?” sem fim? Nesse momento, onde o Coletivo é tomado, corrompido pelo estrelismo, transforma-se em algo semelhante a uma corporação, abolindo a colaboração em favor da competição interna.
Raras são as exceções na região do Cariri, a maioria dos artistas envolvidos em Coletivos provam-se, enquanto decolam, que eram apenas amigos por circunstância, humildes quando não tinham opção, durante a ascensão passam na cara de seus parceiros suas conquistas, construindo uma hierarquia implícita dentro do grupo, onde os menos conhecidos são tidos como “agregados” e se tornam dependentes. Se o menos famoso estava antes no Coletivo por achar melhor (E de fato o é) sobreviver em bando do que sozinho, agora permanece porque se sair será um “ninguém”. Por que existem artistas mais conhecidos do que outros em Coletivos? Por N motivos, o principal deles é que um Coletivo não é contrato de exclusividade, um membro pode ter uma vida “solo” muito mais ativa, e isso como consequência das mais diversas questões (Pode ser mais carismático, mais bonito, mais talentoso, talvez, ou tenha mais amigos), e isso é normal, o que constitui uma anomalia é o uso de um discurso meritocrático excludente quando todos são talentosos e se esforçam dentro de seus limites, ao menos dentro da lógica de um Coletivo.
O absurdo conflito de egos dos artistas do Cariri, esse socialistas de tempos de fome, estes hippies de ocasião, em nada ajuda no momento adverso que enfrentamos, onde o descaso é tanto que materializou-se no fechamento da Secretaria de Cultura da cidade de Juazeiro do Norte. Determinados indivíduos tem tomado a louvável iniciativa de criar, ou tentar criar, frentes de defesa da arte na região por meio de Manifestos, organizando eventos para propagar a mensagem da causa. Os Coletivos de artistas que ali se apresentam, porém, estão mais interessados em sua própria promoção do que com uma militância de classe.
A classe artística do Cariri está dividida pelo egocentrismo e narcisismo, a generosa busca pela liberdade artística sem amarras dá, na primeira brecha, lugar a uma soberba destrutiva, uma ambição inflexível. Serão esses sentimentos algo subterrâneo que apenas esperaram para desabrochar?
É triste ver a arte e seu campo transformados em uma corrida egoísta. O Coletivo Empresa é alvo da crítica dos Coletivos que ainda não podem o ser, com raras exceções. Na região do Cariri, tais iniciativas transformam-se, com o tempo, em um espaços de relações de dependência para seus membros e empresas na “livre concorrência” com outros grupos e mídias. E que se apresente o melhor, isto é, o que tiver os melhores contatos. “Amor e afeto” na boca, cassetete nas mãos.

Não estou sendo utópica, entendo que onde existem muitos artistas a concorrência acaba sendo o único caminho a se trilhar, porém se este fim é inevitável, que ao menos isso seja admitido. Mas vamos à pergunta que me levou a escrever este texto: Realmente somos incapazes de nos unir? 



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com



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