sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Soletrando Ipatinga

"De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder."
Gregório de Matos, Define a sua cidade

Não sei porque, exatamente, esse trecho do poema de Gregório de Matos sempre me fez lembrar de Ipatinga. Abro a discussão sobre a política ipatinguense neste artigo, com esta frase que, como tudo o que sai da minha boca ou do meu teclado, causará polêmica. Mas, pelo menos, não estou furtando a liberdade nem o erário de ninguém — o que é um grande motivo pra ler este artigo até o final.
Uma cidade criada em torno de uma usina não é nada além de serva desta. Como diria Darci di Mônaco: "o destino de quase todo jovem de Ipatinga é trabalhar na Usiminas". E eu também disse isso na minha premiada crônica "A Empresa, o sustento e o escarro". Ipatinga é serva fiel da Usiminas — tudo gira em torno da empresa: a política, a vida social, a economia. Tudo.
A velha oligarquia que assume a prefeitura de Ipatinga, ano após ano, é ridícula: acomoda-se perante a grandeza das chaminés da empresa que os auxilia na eleição. O prefeito, em Ipatinga, "reina, mas não governa", quem dá as ordens é a Usiminas coronelista.
Os políticos furtam nosso dinheiro (o que não é novidade), a usina furta nosso ar, nossa liberdade, nossas áreas verdes. E ambos nos fodem, através dessas mesmas ações.
Ai de ti, Ipatinga!
E parafraseio Robinson Ayres, que adaptou Porfírio Díaz no seminário Cidades Para Quem?: "pobre Ipatinga: tão longe de Deus e tão perto da Usina Siderúrgica!"
"Um furtar, outro foder", é Ipatinga em sua essência.
Ipatinga livre é Ipatinga independente da Usina Siderúrgica! Por uma Ipatinga que invista em tecnologia, cultura, inovação e turismo mais que na usina que só gera emprego — e olhe lá. A Usiminas passa por momentos financeiros difíceis, e se a empresa acabar, estará decretado o Apocalipse desta cidade que mama nas tetas da produção de aço. (Ou seria a produção de aço que mama nas tetas desta?)
Ipatinga, o coração da Região Metropolitana do Vale do Aço fadado à submissão de esposa pela Usiminas, esta empresa sanguessuga e oportunista.
Espero, sem ânsia nenhuma, o resultado das eleições municipais deste ano...
Mas uma coisa digo: não há como votar no "menos pior". Temos candidatos com ótimas propostas e índoles sem mácula, o que nos será favorável caso sejam eleitos. Não podemos dar espaço ao "menos pior", pois deste surge o horrível, o execrável, o abominável.
E finalizo esta provocação em forma de artigo com uma adaptação que fiz da última estrofe de Define a sua cidade, poema com que comecei este texto:

Provo a conjetura já,
prontamente sem acoito:
Ipatinga tem letras oito
que são I-P-A-T-I-N-G-A:
logo ninguém me dirá
que dois ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.



Vinícius Siman

Escritor, diretor, crítico de arte e militante dos direitos humanos. Tem nove livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às sextas-feiras.
Contato: souzasiman@gmail.com


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2 comentários:

  1. Meu caro amigo, faço com suas palavras um paralelo com a ideologia da Escola de Frankfurt... Hoje a sociedade e os governos vivem sempre em favor das grandes companhias. São elas que controlam o mundo liberal e dão os ditames da esfera social. Eu digo mais: é uma impossibilidade probabilística escapar desse círculo vicioso... os homens - todos eles - servem a vários deuses e todos estes chamam-se poder.

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  2. Gente! Eu nunca vi isso acontecer em Ipating... Aaaii! De onde surgiu esse poste que nunca vi? Rerrê.

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