sábado, 6 de agosto de 2016

Pokémon Go é muito mais que um simples jogo, é uma afirmação da natureza humana


Antes de começar a escrever... levantei da cadeira onde passo a maior parte da minha vida livre e fui procurar o livro O Mal-estar na Civilização na ânsia de conseguir boas frases que explicam a natureza humana. Não encontrei nada na minha estante que fosse tão digno e que pudessem me trazer tantas explicações, apenas aprofundei minha alergia ao abrir Admirável Mundo Louco e Interpretações dos sonhos, meus grandes amigos livros com os quais sempre tenho boas conversas.
Não desisti, todavia, de encontrar algum livro que me ajudasse a ter um guia sobre o novo fenômeno que atinge mundo e o que pense a humanidade. Tenho certeza que um bom norte seria o livro dos filósofos e grandes professores Leandro Karnal e Clóvis Barros, mas ainda não tive a oportunidade de adquirir a brilhante obra. Fico então com o já clássico e consagrado Freud – acabei me rendendo ao e-book mesmo, minha saúde não resistiria à outra procura. Ao bom amigo que emprestei o livro, minha estante está sentindo falta.
Mas vamos ao que interessa, perdermos tempo demais com minha busca... Ao fazer uma procura muito minuciosa e filtrada no livro achei a seguinte frase do Freud: ‘Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade – entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável. ’.
Freud como sempre explica tudo ou pelo menos uma boa parte daquilo que chamamos de natureza dos homens. É no nosso grande psicanalista e mais ainda filósofo que busco respostas para as frugalidades humanas. Como sempre querer ser feliz é algo que ultrapassa a racionalidade e cada dia mais o ser humano possui um vazio criado por si. A humanidade trabalha por sua própria infelicidade ao pregar padrões, instituir metas e fugir do sua realidade e no fim confundido o prazer (frugal) com algo que seja pleno e durável.
O grande Mikhail Bakunin cravou uma frase em que diz que o homem procura a religião e os bares para renegar a miséria e para imaginar que é feliz e livre. Hoje a pedra fundamental do anarquismo coletivista incluiria nesse mesmo pensamento as redes sociais e o Pokémon Go. O ser humano renuncia a razão e ao próprio ideal de superioridade animal (sic) e se perde em seus objetivos. A realidade é tão dura e tão aparente que jamais poderemos afirmá-la sem sentir dores no peito, mas eu faço esse sacrifício e digo que o século XXI não é uma época feliz... é uma era carregada de afazeres doentios e de busca por aquilo que nem mesmo sabemos o que é.
Por que as pessoas jogam Pokémon Go e passam tanto tempo nas redes sociais? Respondo a isso trazendo a solidão interna que é intrínseca ao ser humano do século. Somos nós vivendo em nós mesmos e para nós mesmos. Perdermo-nos durante o caminho que seguimos.  Vivemos perscrutando cada segundo de escape da nossa rotina e das nossas certezas.
Porém, mesmo tentando compreender a natureza humana por trás da realidade, faço críticas aos que seguem a sina da renúncia e se vedam diante de fatos... como perdem a própria razão. Sei que escapar é mais fácil, mas a forma como os seres se perdem aproximasse de uma regressão ao próprio progresso e evolução do universo.
Há tanto no mundo para se ver, se descobrir, se amar. Quão mais produtivo é abraçar outro ser humano, ouvir uma boa música – meu amigo Vinicius Siman (colunista das sextas) decerto concorda... Sem modéstia, escutamos muitíssimas boas músicas -, ler um livro, se tornar um ser humano melhor. Cada vez mais nossos motivos de vida são mais efêmeros e menos nobres.
Por fim, desafio a cada “treinador de Pokémon” a capturar um livro, ajudar um ser humano e assobiar uma boa canção... Senhores, aconselho-os a viverem a vida, ela é tão pequena para se viver sem objetivos maiores. Não acho que é o jogo o inimigo das civilizações – a humanidade faz bem esse papel -, mas algo que faz uma família esquecer-se do próprio filho não pode ser bom. Veremos que surpresa a internet ainda nos guarda, teremos muita filosofia para discutir a esse respeito... nada mais intrigante que a natureza própria dos homens.


V. ad Lesbiam

VIVAMUS mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum seueriorum
omnes unius aestimemus assis!
soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit breuis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus inuidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.


Gaius Valerius Catullus

Josué da Silva Brito

Escritor, paracatuense, acadêmico de medicina e militante dos direitos humanos. Tem seis livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente aos sábados.
Contato: josuedasilvabrito1998@gmail.com

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