quinta-feira, 11 de agosto de 2016

PRAÇA POENTE – LÚCIO, LUÍS, JOÃO E A VIDA

MATHEMATIC
4 + X - Y = 1
Four shots next my house
X vultures curious
Y humanity
One dead drug user.


Baf. É o barulho da porta batendo com força.
- Que isso, João? Que te aconteceu? – Do umbral do quarto Luís pergunta.
- O que foi? – Lúcio busca sua bengala enquanto procura entender o que está acontecendo.
- João está com sangue escorrendo da boca, roupas sujas e camisa rasgada.
Ouvindo os passos de João em direção ao quarto, Lúcio diz:
- Êpa! Para ir para o quarto vai ter que tomar banho primeiro.
- Para que tomar banho? Não quero tomar banho.
- Primeiro e mais importante porque é para cuidar de sua saúde. Segundo porque não tenho que aguentar fedor. Terceiro porque higiene é regra da casa.
- É por isso que eu sumo por dias. Se querem que eu fique terá que ser como quero.
- NÓS queremos que fique, mas se VOCÊ quiser ficar vai ter que seguir as regras da casa.
Um minuto de indecisão e entra no banheiro. Com a porta fechada entre eles conversam.
- Que aconteceu?
- Nada não, Lúcio. Vocês é que chegaram cedo.
- Chegamos na hora. E como assim nada não?
- É nada não, já disse. Dá licença que quero tomar banho meu banho em paz.
- Não tente nos enrolar porque senão vai voltar e tomar outro banho até se limpar. – Diz Luís.
Foram para a sala estudar e depois foram falar com o rapaz que estava deitado de cara fechada na cama. Nada disseram por um tempão.
- Falaram coisas feias de vocês dois.
Já imaginando o que disseram Lúcio nem pergunta o que seja. Continua o garoto:
- Disseram que vocês são bichonas.
- Bem! É um termo feio. Preconceituoso. Mas você já percebeu que eu e Luís nos amamos e somos casados.
- Mas vocês não são um homem e uma mulher... São doizômi...
- Sim. E ainda assim nos amamos. – Continua Luís.
- Quem é a mulher e quem é o homem?
- Que pergunta? Você já acabou de dizer, portanto reconhece que ambos somos homens. – Continua Lúcio.
- Ninguém aqui é mulher, João.
- Somos dois homens que se amam e querem viver juntos.
- Não consigo entender...
- Então apenas aceite. Ou melhor, respeite. – Lúcio diz – E com o tempo talvez você entenda. Mas o mais importante é não nos julgar nem condenar e sim respeitar e, se possível, aceitar.
- O que mais eles disseram? – Perguntou Luís.
- ... Nada...
- Fala! – Lucas diz.
- Disseram que vocês fazem coisas feias comigo. Que sou a puta de dois viados.
A boca de Lúcio se escancara e Luís pergunta: “você deu uns socos neles”?
- Sim!
- Quem apanhou mais?
- Eles.
- Eram quantos?
- Três. Do meu tamanho... Um ficou só xingando e os outros quiserem me bater.
- E você bateu nos dois?
- Sim...
- Estou orgulhoso de você. Você é macho pra caramba. E defendeu-nos.
João fica em silêncio. Luís também nada diz. Sem consegui perceber as feições, Lúcio pergunta o que está acontecendo.
O garoto produz uma expressão indecisa, que, claro, Lúcio não vê; mas ao movimentar o corpo como se quisesse criar energia ou coragem para falar, Lúcio recebe uma percepção quase visual da angústia do garoto.
- Pode falar.
- Será que eu sou guei?
- Por que pergunta?
- Nada não.
- Fala. – Ordena Luís.
- Não fiquem chateados não... Mas é que moro com vocês e... e...
- Não tem nada a ver. – Lúcio.
- Te incomodaria ser guei? – Completa Luís.
- Não sei... Estou confuso.
- Se você for guei gostaremos de você do mesmo jeito, como filho. – Continua Lúcio e Luiz corrige e completa: “Como nosso irmão! E se não for guei continuaremos com o mesmo sentimento”.
- O importante é ser feliz sem prejudicar ninguém e se possível fazendo os outros felizes também. – Lúcio completa e continua: Credo, Rubem! Que frases mais clichês e piegas está fazendo a gente falar. Vê se cria algo melhor, menos meloso; menos água com açúcar. Senão vomito.
- Bem, amigos, o que importa é que é verdadeira. Respeitar o diferente, inclusive os afeminados e as masculinizadas.
- É que...
- Mas agora chega. Voltem a falar só vocês três. Retorno para os teclados do computador e lá ficarei até o final da história de hoje.
 - João, você acha que eu e Lúcio somos mulherzinhas? – Luís toma a palavra. – Não acha que somos bem machos?...
Pensa olhando para os dois por quase um minuto
- Não! Acho que vocês são machos pra caramba.
- Rarrá. Levanta. Vamos jantar.
Depois do jantar João vai dormir.
- Luís! A situação do João está irregular. Temos que ajeitar isso.
- É, mas como? Onde?
- Talvez no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente.
Sim. Precisamos ver o que podemos fazer. Além do mais faltam poucos meses para dezembro e ano que vem ele vai ter que estud...
- Que é isso?
- Parecem... tiros!
No lote vago ao lado da casa um usuário de drogas é morto com o rosto desfigurado. Enquanto a polícia analisa o caso, a plateia come pipoca e toma coca-cola. É que não chegaram a tempo o vendedor de churrasquinho nem o de cerveja.

Diquinha de português:
Se não ou senão?
A sequência “se não” é usada com significado de caso não. É formada pela conjunção “se” e pelo adverbio “não”. Utiliza-se normalmente como conjunção condicional ou integrante. Como conjunção condicional tem significado de caso não, quando não [Você fala como se não o conhecesse. Se não conseguir entregar o projeto hoje, não se preocupe. Se não fosse sua ajuda, não conseguiria terminar meus afazeres].
Senão (se+não) é uma conjunção, ou uma preposição ou ainda um substantivo masculino. No primeiro caso significa: 1) Aliás, de outra forma, de outro modo, quando não; 2) Mas, mas sim; 3) A não ser, mais do que; 4) Aparece às vezes como correlativo de não só e equivale a mas também. No segundo caso, ou seja, preposição significa: À exceção de, exceto, menos. E enquanto substantivo pode ser um defeito, uma leve falta ou mácula. Usa-se senão quando significa: Caso contrário, de outra forma [Apresse-se, senão perderá o trem]. 2) A não ser, sem que, mais do que, menos do que, com exceção de [Senão os funcionários imprescindíveis, todos gozaram folga. Ele nada faz senão reclamar. Nada pode fazer senão chorar]. 3) Mas, mas sim, mas também [A história não lhe diz respeito, senão aos segurados. Eram não apenas bons alunos, senão ótimos cidadãos. Não se faz o que se quer, senão o necessário]. 4) De repente, de súbito, eis que (senão quando) [Foi senão, e apenas senão que a notícia atingiu a todos. Eis senão que ele assoma à porta pálido e transtornado].
Atenção! É possível utilizar a expressão “se não” nos mesmos contextos em que se utiliza a conjunção “senão”, quando o verbo se encontrar omisso [Venha rápido, senão não chegaremos a tempo! (caso contrário) – Venha rápido, se não, não chegaremos a tempo! (caso não) – Venha rápido, se não (vier), não chegaremos a tempo! (caso não)].
Dic Michaelis Escolar. Versão 3.0. Amigo Mouse, 2008.

Para saber mais sobre nossos amigos, leia:


  Rubem Leite
 Escritor, poeta e crontista; professor de Português, Literatura e Artes.
  Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras.
  Cronto pensado e criado em 2009 e retrabalhado entre os dias 01 a 11 de agosto de 2016.

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