segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Formas de abordagens possíveis do "eu no mundo" nas minhas narrativas



O texto que se segue é uma resposta a alguns críticos que questionam o modo como trato meus personagens secundários e guio minhas narrativas. É provável que tais críticas negativas se deem devido a não compreensão de alguns elementos, portanto, uma resposta faz-se necessária, caso minha hipótese prove-se verdadeira.



O fato de que somos dragados cada vez mais rápido e cada vez mais fundo
para um mundo cada vez mais retraído num pequeno aqui e num curto agora.
Além, é claro,do fato de as pessoas estarem cada vez mais indiferentes
ao destino de seus próximos ou a qualquer senso de convívio,de comunidade
ou solidariedade. As pessoas vão se fechando num "nós" cada vez mais exclusivo,
tendendo a se restringir, no limite, a um "eu" conectado numa rede infinita
de circuitos virtuais.

- NIcolau Sevcenko

Aquilo que escrevo é, na grande maioria das vezes, bastante introspectivo, o caminho que minhas narrativas trilham levam para o interior. Independente de o narrador estar na primeira ou terceira pessoa, os olhos do protagonista ou protagonistas, seus “eu's no mundo”, são o fio condutor da narrativa, os personagens secundários não são eles mesmos, o que descrevo é o modo como o protagonista os vê.
Quem são esses indivíduos, protagonistas em minhas histórias, mas irrelevantes em uma maior escala de visão, inseridos em uma realidade sobre a qual não exercem ou não podem exercer, sozinhos, qualquer influência transformadora? Essa é a principal pergunta que move todas as minhas narrativas: Quem são essas pessoas? Tudo na trama serve a esse propósito, tramas estas que situam-se sempre no minúsculo universo pessoal da(s) personagem(ns) principal(ais), que, por sua vez, está inserido em uma rede de outros universos pessoais, regidos de cima para baixo. Essa mudança do macro para o micro é uma preocupação primordial em minha escrita, pois são vitais na demonstração da insignificância ao qual o ente é relegado.
Como coloquei anteriormente, responder quem são os protagonistas é o principal objetivo da narrativa, ela parte desta personagem e volta para ela, a esse foco servem, principalmente, as personagens secundárias. Em minhas histórias existem dois tipos de figuras secundárias, “o outro em si” e o “outro para si”. Chamo-os de “o outro” por partir de um pressuposto de intersubjetividade sartreana, onde o ser-para-si tem no outro um espelho, uma forma de se reconhecer no mundo. “O outro em-si”, por sua vez, serve apenas ao corpo-mente-mundo do protagonista, visando possibilitar a percepção de nuances na personalidade deste, tal personagem secundário é, em suas funções narrativas, quase que um objeto que “não pretende vir a ser”, tem aparição pontual e, como um martelo, um objetivo bastante específico: aprofundar o “eu” tratado na história. O “outro para-si” deseja ser, desenvolve-se, tem espaço próprio na trama, e suas relações com o protagonista serve de espelho a ambos. Dependendo do modo como eu decida guiar a obra, podem surgir apenas “outros em-si”, em outros momentos podem aparecer ambos os tipos de “outros”.
Ambos os tipos de personagens secundários, “o outro em-si” e o “outro para-si” tem funções relevantes dentro dessa proposta de narrativa que ruma para dentro. O outro em-si, por mais rápida e efêmera que seja sua aparição, é imprescindível e jamais pode ser chamado de dispensável. O outro para-si, apesar de ter desenvolvimento próprio, o faz por ser relevante no mesmo fim, pois se desenvolve em sua intersubjetividade com o protagonista, poderia não se desenvolver, o resultado seria o mesmo.
Mais de um personagem podem figurar como protagonistas, dependendo da pretensão da história. O personagem principal é um recorte, um mundo individual escolhido para ser analisado. Posso muito bem escolher outros mundos, como bem entender, as possibilidades são infinitas.
Voltando ao assunto da mudança de escala. Essa é uma forma de abordar o “eu no mundo” do protagonista. O indivíduo está imerso em estruturas maiores e mais antigas do que ele, essas estruturas políticas, econômicas e sociais exercem influência e criam poderosas tendências no andamento dos mundos particulares de cada um. Assim sendo, em vários momentos começo capítulos partindo do macro para o micro, de modo que essa diminuição da escala deixa evidente a impotência e o engessamento dos diversos “eu's” dentro desta realidade concreta, que possui a seu favor formas de coerção bastante complexas e multilaterais. Quais são essas forças que criam a impotência do indivíduo e limitam a escolha? Essa resposta está a critério da escritora em sua construção, eu, como comunista, tenho minhas hipóteses. Porém, basicamente, a mudança de escala pode ser útil na resposta a pergunta primordial nessa narrativa que trilha para dentro: Quem é o indivíduo e por que? O contexto no qual está inserido deve ser levado em conta, destrinchado.
Constatando a impotência do “eu no mundo” na realidade concreta, a tragédia da falsa liberdade, a ilusão do poder, opto por tomar uma postura de anticlímax. A história caminha por um problema que promete um clímax, mas esse nunca chega, ou demora demais. Personagens tão impotentes muitas vezes não encontram clímax possíveis, podem apenas, gradativamente, ser esmagados até aceitarem suas condições. Logo, há um final, mas nem sempre há um clímax. O indivíduo que caminha pelo problema, percebendo sua pequenez, essa jornada para dentro de si, onde o protagonista apenas se reconhece em seu lugar no mundo por ser incapaz de vencer, esse é o assunto pelo qual me interesso. É disso que trato.
A minha forma de escrita segue esse padrão já falado, usa a variação de escala como forma de explicar a realidade do protagonista, a realidade é diminuída, em um microscópio sociocultural, até chegar no universo pessoal do qual a história trata. Quem é esse “eu” e por que é? “O outro”, os contextos conjunturais, pessoas da narração, tudo serve a essa função: entender o protagonista em sua pequenez, dentro da impotência a qual é condenado. A impotência é a minha matéria prima. Aos meus protagonistas o fim é inevitável, aceitarão eles esta inevitabilidade? A subjetividade destas figuras em sua relação com o fatalismo permite uma imensa diversidade de possibilidades.



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com




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