segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulos de um Golpe 1 - A DEIXA


Adendo- Proponho-me, a partir deste artigo, escrever uma série de artigos que visam construir uma História do golpe, é bastante ambicioso, principalmente para uma graduanda, e está em progressão. Aqui serão publicados os esboços dos capítulos, apenas uma versão preliminar, bastante resumida, do que pretendo trabalhar, devido a amplitude e complexidade destes estudos não posso garantir a periodicidade destes artigos, mas os completarei. O recorte temporal deste estudo será de 2013 a maio de 2016, me desejem sorte, fiquem agora com o "esqueleto" do primeiro capítulo de um trabalho que estou desenvolvendo, o nome provisório que pretendo para a versão completa (sabe-se lá quando completarei isso) é A Era dos Tapados. Relembrando, isso é apenas um esboço inicial, em forma bastante embrionária.

Dificilmente o governo de São Paulo, ao aumentar 6,7% nas tarifas dos transportes públicos naquele Estado esperaria acarretar um enorme movimento pelos meses seguintes a curto prazo e dividir o país ao abrir, indiretamente, espaço para um golpe parlamentar quase três anos depois. Mas foi isso que fizeram.
O aumento de vinte centavos nas tarifas gerou uma enorme comoção, que foi o pontapé inicial das chamadas jornadas de junho, em um primeiro momento apenas contra o aumento do preço das passagens, nos meses seguintes as manifestações prosseguiram com outras pautas, como a melhoria na educação, saúde e contra o governo.
Tais manifestações explodiram em todas as partes do país, “O Gigante Acordou”, era o slogan oficial da chamada, na época, revolução dos vinte centavos. A voz popular não se manifestava dessa forma desde o movimento dos caras pintadas, movimento de 1992 que lutava pelo Impeachment de Fernando Collor de Mello. É icônica a cena de uma multidão protestando em frente ao congresso nacional e subindo em sua laje modernista.

Os movimentos e protestos no Brasil nunca cessaram, as causas dos negros, homossexuais, mulheres e professores se davam, porém a tomada das ruas, a consciência de que a política não é apenas para políticos em Brasília se deu em junho de 2013, inegavelmente, todos os lados políticos agora encontravam na rua uma forma de fazer ecoar suas vozes. Há dois anos houve a explosão, sem precedentes, de um fenômeno que se fortaleceu a partir dos anos 80 a nível mundial, como coloca COSTA (1994, P. 44).

Os anos 80 são caracterizados de forma geral pela intensa perda de atratividade dos partidos. Os cidadãos ativos politicamente estariam trocando o seu engajamento partidário pelo envolvimento em novos grupos e novas solidariedades.

 Esse fenômeno, essa nova mentalidade, a percepção do apartidarismo dos movimentos sociais como virtude, apartidarismo que será, como veremos mais a frente, requisitado por todos os manifestantes nesse momento e posteriormente. Há uma desconfiança generalizada sobre o modo tradicional de fazer política, ou tal ideal é usado como “prova” de imparcialidade, independente de seus diferentes usos, a virtude do apartidarismo é um fato. Diversos movimentos sociais já manifestavam tal característica, porém durante a chamada, na época, Revolução dos Vinte Centavos, esse elemento foi massificado.
O legado das jornadas de junho é bem maior do que a causa que os acarretou, a saber, o aumento das tarifas de transporte público, 2013 iniciou uma tendência, a dos protestos em massa no Brasil, a cobertura dada às manifestações por parte das maiores redes de comunicação do país, que não são muito famosas para dar espaço às questões populares, fizeram o povo perceber que podiam chamar atenção para suas aspirações, coloca-las em pauta fora das urnas. A Rede Globo, por exemplo, o mais influente grupo empresarial de comunicações brasileira deixou e exibir, no dia 20 de junho de 2013, a novela das seis, Flor do Caribe, para dar lugar à cobertura de protestos que ocorriam simultaneamente em várias cidades, todos juntando milhões de indivíduos. Usuários do Twitter demonstraram ânimo e se vangloriaram pela atenção.

Nunca achei que iria ver isso. Globo cancelando novela pra cobrir manifestação. Sim, mudar é possível! o/ — Bruno Oliveira (@88_oliveira) June 20, 2013

O exemplo acima é um exemplo do entusiasmo ganho pelos manifestantes devido à atenção recebida. Sim, o grito funciona, iniciava-se uma nova era na política brasileira. Outro legado das jornadas de junho é o uso das redes nas causas sociais, legado esse, por sua vez, inevitável, mas tal inevitabilidade não muda o fato de que nesse período constatou-se que as redes sociais podem ser muito eficientes na mobilização de gigantescos grupos.
A “cura gay” e a PEC 37 foram alvos do furacão dos protestos de 2013, a cura gay ou Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, projeto polêmico defendido pelo Deputado Marcos Feliciano (Chegando a ser tido como autor do Projeto de Decreto Legislativo em questão), um pastor evangélico e fundamentalista, membro do Partido Social Cristão e ocupante da chamada bancada evangélica, e proposto pelo deputado João Campos, do PSDB de Goiás, procurava dar a possibilidade de profissionais na área da psicologia “atuarem” com relação a questões de orientação sexual, em síntese, que homossexuais que queiram “ajuda” com relação a sua condição sexual possam ser “ajudados” por psicólogos. Basicamente sim, uma cura gay, pois o projeto rejeita o fato de que o que torna um gay ou lésbica infeliz para com sua sexualidade é a repressão sofrida por esta, o PDC 234/2011 foi, basicamente, uma medida higienista, arquivada devido aos protestos contra ela.
A Proposta de Ementa a Constituição, por sua vez, limita os poderes de investigação do Ministério Público, deixando tal competência exclusivamente para as polícias federais e civis, também foi arquivada devido à pressão popular.
Nesse momento as figuras conservadoras do congresso foram ridicularizadas extraordinariamente, o slogan “Feliciano não me representa” – lembre-se que o pastor/deputado foi tido como autor do projeto – se popularizou e as forças reacionárias pareciam mal preparadas para lidar com esse novo fenômeno. O Pastor Silas Malafaia, por exemplo, resumiu seu contra ataque a um artigo, que não impediu o arquivamento do projeto, sequer criou grande resistência a eles. Nesse momento os conservadores do Brasil estavam mais preocupados em pronunciar-se contra os protestos em si do que em organizar contraprotestos, um exemplo é um artigo de Reinaldo Azevedo, na revista VEJA, que acusa o Movimento Passe Livre, organizador de muitos protestos, de “financiado pelo petismo”, nessa época petismo era usado como pejorativo apenas por um grupo muito específico, como o formulador de teorias conspiracionistas e ex-astrólogo Olavo de Carvalho e seus seguidores, muito menos numerosos na época. A única desvantagem de ser chamado “petista” na época era relacionado ao que já coloquei mais acima, ela fere a virtude do apartidarismo, tal denominação não possuía essa carga especificamente negativa que viria a ter. Ser associado ao “PT” em 2013 e em 2016 são coisas drasticamente contrastantes.
Todos os que se colocavam a favor da PDC 234/2011, citando apenas esse grupo, estavam longe de organizar grandes manifestações em nome de pautas conservadoras, mas criticavam duramente as jornadas de junho, afirmando que estas nada mudariam ou que os manifestantes não passavam de baderneiros, tendo como base o grupo chamado black blocs, que assumiam uma postura mais radical de enfrentamento. A criação de um espantalho a partir de determinados indivíduos dos protestos era a principal arma de desvalorização dos movimentos, não parecia surtir muito efeito ou chamar muita atenção. O reacionarismo ainda não estava organizado e articulado o suficiente para contra atacar de forma tão massiva e chamativa quanto os movimentos de Junho de 2013.


A cultura de protesto veio, ao que parece até agora, para ficar, com seus benefícios e malefícios, ela é, em seu âmago, positiva, pois tira a política do hall de assuntos indiscutíveis ao qual esteve relegada, por outro lado, a falta de preparo e educação para a política acabou por permitir atrocidades sendo temas de protestos e imenso apoio popular nos últimos dois anos, cristofobia, heterofobia, apoio a rejeição de direitos populares e uma visão totalmente dicotômica da política, tal qual um sistema de discussão baseado em facções maniqueístas, assunto este que trataremos mais tarde.

Referências
AZEVEDO, Reinaldo. Entidade que é dona de domínio do “Movimento Passe Livre” recebe dinheiro da Petrobras e do Ministério da Cultura e tem incentivo da Lei Rouanet. Encontrado em < http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/entidade-que-e-dona-de-dominio-do-movimento-passe-livre-recebe-dinheiro-da-petrobras-e-do-ministerio-da-cultura-e-tem-incentivo-da-lei-rouanet/>, acesso em 26 de julho de 2016.

BRASIL, Câmara dos Deputados, Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, Susta a aplicação do parágrafo único do art. 3º e o art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual. <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=505415>, acesso em 26 de julho de 2016.

BRASIL, câmara dos Deputados, Projeto de Emenda a Constituição 37/2011, Acrescenta o § 10 ao art. 144 da Constituição Federal para definir a competência para a investigação criminal pelas polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal. < http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=507965>, acesso em 26 de julho de 2016.

COSTA, Sérgio. Esfera Pública, Redescoberta da Sociedade Civil e Movimentos Sociais no Brasil. Novos Estudos nº 38, pp. 38-52, 1994.

PESCHANSKI, João Alexandre, Direita e esquerda no espectro do pacto de silêncio, publicado em <https://blogdaboitempo.com.br/2013/07/01/direita-e-esquerda-no-espectro-do-pacto-do-silencio/> acesso em 26 de julho de 2016.

MALAFAIA, Silas. A mentira da imprensa sobre a ‘cura gay’; Pr. Silas comenta. Encontrada em < http://www.verdadegospel.com/a-mentira-da-imprensa-sobre-a-cura-gay-pr-silas-comenta/>, acesso em 26 de julho de 2016.

STURM, Heloísa Aruth, Ativistas protestam contra PEC 37, "cura gay" e Copa no Rio, encontrado em http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/ativistas-protestam-contra-pec-37-cura-gay-e-copa, acesso em 26 de junho de 2016.

TERRA, Globo deixa de exibir novelas para mostrar protestos pelo País, encontrado em <http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/globo-deixa-de-exibir-novelas-para-cobertura-de-protestos,ffc24201aea5f310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html, acesso em 26 de julho de 2016.




SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário