segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sobre saraus - Um texto de opinião





Saraus são apresentações artísticas onde posso expor para algumas pessoas aquilo que escrevo. Sou uma artista, logo aproveito esse espaço para me apresentar, pois nada é pior para uma artista apaixonada do que não encontrar lugar para apresentar-se. Na minha concepção saraus são arte, não atitudes de militância. A arte pode servir, sob certa medida, à militância, mas, colocando na balança seu caráter "puramente artístico" se sobressai sobre o aspecto militante.
Para alguns os saraus são formas de protestar ou de lutar, para mim esse não é o perfil nem do sarau, nem das lutas. A arte pode revelar uma noção de mundo, pode manifestar as opiniões do artista, mas a arte nunca é militância, pode levar à militância, mas ela mesma não tem bandeira, e graças a Grande Rocha e a Satan por isso. Que podre seria uma arte unicamente com fins de propaganda, mesmo que a propaganda fosse benéfica.A boa arte (se eu escrevi, então óbvio que essa é minha opinião), quando critica, quando toma caráter militante, não o faz explicitamente, o faz sutilmente, nota-se a crítica em sua forma, em sua beleza, como procurei fazer, modéstia parte, com meu conto "A fenda". Você não vê "DEIXEM DE SER CONSERVADORES, ME DEIXE SER LÉSBICA EM PAZ, ME DEIXEM LEVAR MINHA NAMORADA PARA O QUARTO E FAZER AMOR COM ELA" nele, isso eu faço em meus status de Facebook ou em meus embates diretos. A mensagem fica nas entrelinhas, será notado pela empatia que o espectador sentirá pelos personagens, isso é o poderoso na arte.
Na atual conjuntura política é vital que a luta se dê fora do "mundo das ideias", os golpistas, patrões que não reconhecem direitos e toda a escória política não tem medo de Sarau, pelo contrário. Discordo de quem acredita que os recitais de poesia são uma forma eficiente de resistência, em conjunto são eficientes, mas, nem uma luta pode os ter em alta estima, e nem os saraus podem ter a luta como foco. O erro de quem critica saraus e de quem os faz é o mesmo: veem como inerentes dois elementos que podem ser juntos, mas que são, irrevogavelmente e para o bem da arte, independentes.



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com

4 comentários:

  1. Sued, minha cara, só está aguardando este texto ser publicado para comentá-lo. Já não mais aguentava a expectativa depois do seu último texto, fui correndo ler este enquanto ainda estava em rascunhos. Mesmo não concordando com seus pontos de vista - acredito que a arte deve sempre ter um quê e um fazer social, caso contrário ela apenas aliena- gosto muito da sua exposição e leitura de mundo. Apesar de pouco ter ido, seja para recitar ou para apreciar, sou um apaixonado por sarais, por isso amei seu artigo!

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    1. O texto é contra a arte panfletária, eu frequento muito saraus e eles não ajudam em muita coisa na política da minha região e o caráter panfletário de muitas poesias recitadas é gritante, o que diminui sua qualidade drasticamente. Concordo, a arte deve ter um quê social, mas a militância não deve ser o fim em uma obra. Até Trotsky vê, em seu "Literatura e Revolução", isso como um empobrecimento.

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    2. Logo eu defendo que saraus podem sim ter poemas com fundo social e que sirvam a uma causa, mas não podem jamais ser panfletários e o sarau deve servir mais ao fomento da arte do que ao caráter militante, haja visto que para esse último são quase inúteis. Pode haver militância no sarau? Claro, isso é ótimo. Mas o sarau pode servir a militância? Problemático, pois não terão nenhum impacto para seus fins e os frutos desses eventos são, em sua maioria, obras bem medíocres sendo recitadas.

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  2. Oi!
    Meu pensamento é parecido com o seu. No que vou falar agora não sei se concordamos ou se discordamos, se na íntegra ou se em partes, mas acredito que a arte é pela arte e não levanta bandeira. Mas se ela não mostra (não vou dizer "denunciar" porque nem sempre é necessário assim fazer, mas apresentar, mostrar é necessário para fazer pensar e/ou sentir) o que está acontecendo ela não é arte porque está morta (só defunto não vê ao redor e se cala). Penso nos artistas da época ditatorial, fizeram verdadeira arte pela arte e ainda fizeram o consumidor (leitor, ouvinte, admirador, espectador e etc.) ver a realidade e pensar. Penso em Machado de Assis, meu escritor predileto; ele nunca levantou bandeira, mas como denunciou as crueldades da escravidão, como mostrou o vazio da alma humana, a podridão social, as "teias" políticas (veja, por exemplo, Memorial de Aires, O Espelho, Pais contra Mãe, Sereníssima República).
    Mas acho, pelo que li, que concordamos muito e estou dizendo o mesmo que você (ou muito parecido); apenas em palavras e exemplos diferentes. Estarei certo?

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