quinta-feira, 14 de julho de 2016

PRAÇA POENTE – LÚCIO


PLAZA POENTE – LÚCIO


Caminhava pela Av. João Valentim Pascoal com ajuda de minha bengala. O trânsito estava especialmente intenso e como sempre os odores estavam variados. Perfume, sovaco suado, churrasquinho, cocô, salgadinhos, gás carbônico, xixi, outro perfume, esgoto. – Huuum! Pelo cheiro e pela voz... deve ser uma mulher bem gostosa! – É muito interessante sentir na pele, como uma chuva seca, o pó férreo que sai das chaminés. Pessoas falando, gritando, música sertaneja, fanque, roque nacional, roque estrangeiro. Percebi a poucos metros o sinal fechando. Sei porque o barulho dos carros mudou de direção. Paro. Alguém continua a caminhar. Ia por o pé no asfalto. Pelo cheiro do suor deve ser homem. Não é fedorento. É que homem tem mais suor que mulher. Levanto o braço esquerdo parando-o pelo peito.
– Quê? – É só o que diz até perceber o trânsito.
– Mais atenção, cara. – Digo sorrindo.
– Não vi o trânsito. – Fala o carinha com uma voz grave, levemente desafinada.
– Nem eu. – Respondo sorrindo ainda mais.
– Ah! Você é...
– Cego? Sim! – Pequena pausa. – Para onde vai?
– Para a rodoviária. – Responde. – E você?
– Para o Veneza.
– Sou Luís, e você?
– O sinal abriu; vou indo. Vai ficar? – Falei enquanto comecei a atravessar.
– Não! – Parece que ele dá um passo grande e desajeitado. – Como disse, estou indo para a rodoviária.
– Comprar passagem ou receber alguém?
– Como sabe que não vou viajar. – Pelo tom da voz ele estava sorrindo.
– Ao tocá-lo não percebi nenhuma mala ou mochila de viagem.
– Tá. É verdade. Vou comprar.
– Chegamos à rodoviária. Aqui eu entro na Belo Horizonte para ir para o Veneza. Tchau.
– Espere. Você não me disse seu nome. Você me salvou a vida e com isso nos tornamos amigos.
– Amigos? É provável. Com o tempo, talvez.
– Mas só poderemos ter certeza se a gente se vê mais vezes... Ai! Desculpa.
Gargalho um pouco e digo: Não se preocupe. Isso é só uma expressão. Não nos incomoda. E você parece gente boa. Eu sou Lúcio. Tem acesso fácil à internete?
– Sim.
– Então acesse http...
– Espere! Deixa eu pegar papel e caneta para anotar. Um momento. Aaanda, papeeel. Pronto. Peguei! Pode falar
 http://artedoartista.blogspot.com e você irá achar meu email, se quiser, falar comigo. Tiau.
– Até logo.
Deixo-o. Ao redor um trânsito menos intenso, com cheiros variados, o pó ainda caindo. Músicas e pessoas falando, gritando. Interessante! – penso – Deixei de perceber tudo isso enquanto caminhava com Luís.


Rubem Leite
​Escritor, poeta e crontista; professor de Português, Literatura e Artes.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras. 
Contato: arterubemleite@gmail.com

2 comentários:

  1. Muito bom, Rubem. Gosto muito de recortes cotidianos com essa sensibilidade das percepções do cenário! Neste, então, podemos ver através dos sentidos aguçados de um deficiente visual. Formidável!

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  2. Muito bom, Rubem. Gosto muito de recortes cotidianos com essa sensibilidade das percepções do cenário! Neste, então, podemos ver através dos sentidos aguçados de um deficiente visual. Formidável!

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