sexta-feira, 1 de julho de 2016

E agora, Michel?

A epopeia brasileira em plena crise política, financeira e ideológica


“E agora, José?”, escreveu o poeta em [19]42. “A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu”.
E agora, Brasil?
Logo após as eleições presidenciais de 2014, o maior partido de oposição ao Brasil era o PSDB. Queriam porque queriam chegar à presidência da República a qualquer custo: exigiram recontagem de votos, afastamento da presidenta Dilma e muitas outras traquinagens pueris contra a democracia.
A pouco tempo, descobriu-se uma outra oposição (desta vez, da própria base aliada do governo), ainda mais perigosa que Aécio Neves e sua trupe tucana: Eduardo Cunha, do PMDB, então presidente da Câmara dos Deputados, que, para livrar-se das investigações que batiam à sua porta, criou um alarde imensurável dizendo que romperia os laços políticos com Dilma.
Já nos últimos dois meses, Michel Temer, então vice-presidente da República e agora presidente interino, rebelou-se descaradamente contra a presidenta que o tinha levado ao cargo. Temer, em carta escrita a Dilma, disse que sentia-se um “vice decorativo” — será que ser um presidente decorativo (como está sendo) o satisfaz?
De todas as coisas que o PT já fez para prejudicar o Brasil, a pior delas foi criar vínculos com o PMDB. E o furdúncio da politicagem não acaba por aí.
A grande mídia — que cooperou para a realização do golpe — agora põe-se a divulgar manchetes comprometedoras de seus comparsas. A custo de quê? Todos uniram-se num só intuito: tirar a presidenta Dilma do poder para salvar suas peles. Conseguiram o que tanto almejavam. Agora digladiam entre si para ver quem permanece no poder, como numa brincadeira de criança.
Agora, o principal inimigo do Brasil não é fulano ou sicrano. O golpe tem várias faces (outra justificativa para mais uma citação de Drummond: “você que é sem nome,/ que zomba dos outros”), e todas essas faces estão cobertas por máscaras que somente o tempo poderá (e irá, espero) tirar — como tirou as de Jucá, Sarney, Renan e Cunha.
“E agora, José?”
E agora, Michel?
E enquanto o país desmorona, espero, silenciosamente, os próximos capítulos desta novela de Janete Clair que é o Brasil atual.



Vinícius Siman

Escritor, diretor, crítico de arte e militante dos direitos humanos. Tem nove livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às sextas-feiras.
Contato: souzasiman@gmail.com

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