segunda-feira, 11 de julho de 2016

Crítica: "Toque-me", um espelho

Membros do Coletivo Dama Vermelha na introdução do espetáculo Toque-me

Não escondo de ninguém a desconfiança e descredito que dou aos espetáculos de teatro contemporâneo, assim sendo, é quase inevitável que eu tenha uma visão negativa acerca da abstração de conceitos promovida pelo espetáculo Toque-me do Coletivo Dama Vermelha, que é um dos mais originais e autênticos grupos de teatro da região do Cariri cearense e cuja série "Coisas que Caem de Mim - Fragmentos" me desperta grande admiração. O grupo heroicamente foge dos modismos da arte regional tão imponente e orgulhosa de si mesma por se achar tradição, porém, se por um lado fogem do tradicional teatro regionalista tão saturado e preguiçoso, acabam por cair, pelo menos no caso desta performance específica, em outra armadilha, a do polêmico clichê da “provocação por si mesma” (Como em um panfleto, armadinha esta na qual já cai algumas vezes), técnica trabalhada e retrabalhada, esse método choca por seu caráter ousado e provocativo, sendo esse último alvo atingido de maneira absurdamente fácil e “com um fim em si mesmo”, sem camadas, o que o me leva a caracteriza-lo como raso. Embora ache o Toque-me preocupantemente superficial e clichê, ele funciona, não apenas por sua inegável beleza estética, cuidado minucioso com ambientação e visível dedicação dos atores – Todos donos de uma presença forte e magnética –, mas como espelho dessa sociedade caririense conservadora.
Ao assistir o espetáculo, mais do o que se passava no palco, o que me chamava à atenção eram os olhares, as risadas tímidas e o choque que a apresentação, dotada de altas doses de libido. O grupo, que procura demonstrar a dificuldade cada vez maior de obter satisfação a partir do próprio prazer devido à esmagadora individualidade e consumismo dos dias atuais, é interpretado por seu público sempre por um viés moralista, de um lado ou de outro, alguns elogiam a ousadia de falar a respeito de temas como masturbação e homossexualidade, outros negativam o espetáculo pelo mesmo motivo e, poucas vezes se sai desse eixo, demonstrando os tabus e a “vergonha do próprio corpo” inerente à sociedade do Cariri cearense que ainda interpreta tais coisas como sendo “de outro mundo”.
O espetáculo, que tem grandes doses de interação com o público, gera timidez e constrangimento para alguns, que ficam sem reação alguma diante dos atores que pegam as mãos de alguns espectadores e passam em seus corpos ou diante do tema do suicídio, quando os personagens, todos abstrações, pedem, respectivamente, para um espectador, que os mate por não serem corajosos o suficiente para isso. A falta de maturidade a respeito de tais assuntos fica alarmante e o Coletivo Dama Vermelha é feliz ao demonstrar isso, o desconforto que causa e o moralismo que da apresentação resulta nos diz muitas coisas e ascende em mim diversas problemáticas acerca da hipócrita sociedade na qual vivemos, que prefere apenas “não falar” sobre determinadas coisas e, mesmo diante dessas, preferem se calar, ou apenas falar o mínimo possível, em um triste ato de omissão diante de debates que não podem mais ser postos de lado.
Sintetizando, acho o espetáculo Toque-me, em si mesmo, muito fraco e raso por vê-lo como bastante previsível e fruto de clichês comuns, porém mais interessante do que a performance em si é a dificuldade de comunicação entre público e os atores, parecem estar em universos absurdamente distintos, e talvez estejam. O Coletivo Dama Vermelha constata, consciente ou inconscientemente, que, infelizmente sim, são dois mundos separados, enquanto um quer se aproximar, outro quer distância, pois sente repulsa, ao mesmo tempo que é atraído pelo primeiro, por isso odiando e sendo odioso. E esses mundos são, em suma, modos de entender a si mesmo, as próprias vontades e o próprio corpo, a maioria das pessoas ainda tem medo de si e a negação da vontade ainda é tida como virtude, até quando assim for, o espetáculo Toque-me será um espelho.

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SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com

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