sexta-feira, 8 de julho de 2016

Canibais, graças a Deus

A Tropicália não é hermética; apenas socialmente sintética


Peguei-me reestudando o Manifesto antropófago e Manifesto da poesia pau-brasil, de Oswald de Andrade, onde ele afirma que “só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”.
E recordo-me também de Zé Celso e sua aversão pela palavra resistência. “O negócio não é resistir, porra! É re-existir!”.
Consequentemente, vem-me à cabeça o livro Alegria, alegria, do Caetano, e seu manifesto da preguiça e da breguice brasileiras.
Somos canibais — graças a Deus!
Temos em nossa veia o sangue de bugres, de pretos e de gentis navegantes europeus. E o brasileiro, mais que o português, tem a consciência de que “navegar é preciso, viver não é preciso”. — Povo argonauta, que ultrapassa os gregos e seus tripulantes de Argo, trazendo não um reles velo de ouro, mas uma penca de bananas douradas e rechonchudas sobre a cabeça!
O movimento mais autêntico brasileiro é a Tropicália. Não há porque negar nossa breguice chique, não há porque esconder nosso jeitinho peculiar, nosso calor tropical — típico de um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas que beleza!
“Só a antropofagia nos une”.
Somos um povo abençoado pelos orixás. Somos todos Bahia. Bahia de todos os santos.
A autenticidade do Movimento Antropofágico o permite ir além da música, do teatro, das artes plásticas, da tela da TV — alô, Teresinha! (“Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa”). — É essencialmente brasileiro, socialmente sintético e infinitamente re-existente: tudo que nasce nesta terra é tropicalista. Antropofagia não é só um movimento. É o DNA de um povo.
“Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI”.
“A alegria é a prova dos nove”.
E se um dia um gringo metido a gentleman me perguntar se o Brasil é, de fato, o país das beautiful girls, responderei, com péssima pronúncia: we are cannibals, thanks God!



Vinícius Siman

Escritor, diretor, crítico de arte e militante dos direitos humanos. Tem nove livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às sextas-feiras.
Contato: souzasiman@gmail.com

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