sábado, 16 de julho de 2016

A ignorância – filhos de 1964

Algo engraçado ocorreu no Brasil nos últimos anos, melhor, no mundo. Parece que todos os covis foram abertos para que ignorantes vociferem as suas verdades absolutas e acirrem ainda mais os ânimos, levando risco até as democracias ditas estáveis. Não obstante, o que quero discutir é o papel das redes sociais nesse processo, visto que os ignorantes sempre existiram o diferencial é que hoje possuem voz e se articulam.
Imagem da Web
Antes, não sei, caro leitor, se concordará com todos os meus entendimentos, todavia, peço que tenha sua própria experiência, passe 30 minutos do seu dia lendo os comentários das principais redes de noticiário do nosso país. Verá o quanto as pessoas são extremistas em um conservadorismo que adveio de 1964, uma herança maligna da ditadura militar.
Observo abismado aos comentários que perdem intervenção militar no Brasil, que defendem com amor e afinco Jair Bolsonaro, declarações de amor ao falecido coronel Brilhante Ustra, repúdios veementes a cenas de televisão que mostram a realidade da sociedade e tentam educar quanto à diversidade de gênero... em tese, estamos novamente nos anos de chumbo.
A sociedade brasileira se reveste a cada ano em uma esfera de desconhecimento e hipocrisia. Os debates que ocorrem em redes sociais são desprovidos de qualquer ciência e se investem de achismos devastadores. Quão fácil para se ter a sensação de sair vitorioso em uma discussão e se achar dono do saber se chama alguém de esquerdista ou pão com mortadela, simplesmente porque o individuo manifestou preocupação por justiça social, e diz que a esquerda destruiu o nosso país.
A ignorância é tamanha que até mesmo a definição de esquerdistas é desconhecida por nossos grãos filósofos e cientistas políticos do Facebook. Deixo claro, que o desconhecimento envolve ambas as partes, extremistas são encontrados tanto na esquerda quanto na direita, mas é clara a grande predominância da direita na ignorância tangível e não estou usando minhas ideologias para essa definição, basta ler alguns muitos comentários por dia e isso será límpido aos olhos.
Ao invés de usar o precioso tempo para se estudar, ler e poder causar uma mudança nos rumos do país... muitos perdem tempo batendo boca e fazendo acusações fúteis revestidos por um saber sem origem – ou melhor, originado da própria ignorância.
Tenho prestado também muita atenção, que estes que ganharam voz pelas redes sociais, os mesmos que antes vomitavam suas ideias conservadoras apenas no leito de suas famílias, estão se articulando, formam grupos nas redes sociais e disseminam cegamente a ideologia da ignorância. O grande detalhe, no entanto, é a mudança da ignorância. A ignorância se veste hoje de ciência e métodos próprios. Justifica cada um dos atos e busca sempre transferir o obscurantismo a outrem.
Nunca nossos intelectuais da rede admitem erros, desinformação ou falácias, sempre afirmam dotados de certeza e com base em nada a não ser seu próprio e superior entendimento pessoal. Se esse entendimento for contestado há brigas e discussões que escapam do plano da racionalidade.
Cito um caso em que vi a agressividade da ignorância. A grande pensadora Marilena Chauí expressou uma opinião sobre o juiz Sergio Moro – pessoalmente não concordo com as conclusões que ela chegou, mas isso é detalhe – e foi escorraçada. Os anos de estudo, a formação impecável, os livros escritos, tudo foi obliterado e nos comentários os grandes entendedores criticaram e desrespeitaram-na taxando-a de louca e outras adjetivos mais que não me convém reproduzir.
Valorizo muito os grandes préstimos da tecnologia, contudo, ela não está sendo bem utilizada. Não é agregada para se adquirir conhecimento, mas para se exteriorizar ignorância, conservadorismo, preconceitos e outras tantas patologias da inteligência que tornam o mundo menos aprazível e manifesta riscos as estruturas sociais e de poder. Sinceramente espero que as deploráveis ideologias das redes sociais se findem nelas, pois se refletirem em nossos políticos – refletem – teremos sérios problemas no futuro, tal qual um Bolsonaro em 2018 ou Trump em 2016. 


Josué da Silva Brito

Escritor, paracatuense, acadêmico de medicina e militante dos direitos humanos. Tem seis livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente aos sábados.
Contato: josuedasilvabrito1998@gmail.com

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