sexta-feira, 8 de julho de 2016

A história por trás das lágrimas

Um panorama do fenômeno Cunha


Reuters 

Aos gritos de que a sessão não era regimental, que a constituição não aprovava tal movimento, palmas que enchiam o recinto e homens resguardados pela Magna Carta, que não se deixavam diminuir em um momento de turbulência. Era decretado algo totalmente absurdo, fato que marcaria profundamente o futuro do nosso país.
Por mais que a situação narrada se assemelhe a algum ato do deputado suspenso Eduardo Cunha, essa sessão comum do Congresso Nacional se deu em 1º de Abril de 1964 e quem a levou até o final foi o senador Auro de Moura Andrade. Como visto, as ações dos homens que tornam os golpes possíveis seguem um modus operandi comum. Facilmente essas ações poderiam ser dadas como marca de mais uma das muitas manobras que açoitaram o Plenário da Câmara dos deputados.
Aqueles que tenham um pouco mais de memória ou já tenham se debruçado em livro de história sabem que os grandes idealizadores legislativos do golpe – me refiro a Manzilli e Moura Andrade, presidentes da câmara e senado – foram esquecidos e ignorados pelos generais presidentes. Moura não conseguiu se tornar vice de Castelo Branco e Manzilli não conseguiu se reeleger ao cargo de presidência que ocupava fazia sete anos. Em suma, jamais voltaram ao poder federal.
Voltando ao grande figurante dos elementos orquestrais do golpe, Cunha derramou as lágrimas mais sôfregas que já correram pelo egrégio Salão Verde. Aos gritos de “fora Cunha” o deputado talvez tenha se tornado humano pela primeira vez – em segundos que não merecem a consideração do povo brasileiro – desde que assumiu a presidência do órgão. Contudo, ele não chorava de arrependimento pelos erros que cometeu, mas por ter sido pego e se vê de forma insustentável. Não há mais poder para ele.  Não há chances de salvação.
Como diz o mais clássico dos adágios populares, a César o que de César é. Espero, como brasileiro injustiçado que viu uma presidenta que nunca cometeu crime (vide decisões da Procuradoria da República no Distrito Federal e da perícia do Congresso Federal nos decretos que são dados como base ao impeachment) ser levado ao cadafalso por um infame e vil criminoso, que as lágrimas continuem a rolar no rosto do deputado Cunha e de seus familiares. Deverão pagar por cada crime, cada centavo desviado e por cada jantar pago na Europa com dinheiro que pertencia a nossa maior empresa e bem popular.
Por fim, espero que haja esquecimento deste senhor. Os danos que ele fez a república só podem ser superados pela história e pelo futuro, pois hoje no presente estamos vitimados a tais. E aos que já comemoram a renúncia do Eduardo, esperem um tempo. Talvez a grande estratégia dos golpistas dê certo... O parlamentar ainda tem chance de salvar o mandato emplacando um de seus capachos na presidência da casa. Dito isso, olho aberto e que mais lágrimas de bandidos corram no nobre Salão Verde do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil. Adeus, Cunha e claro, fora Temer. 




Josué da Silva Brito

Escritor, paracatuense, acadêmico de medicina e militante dos direitos humanos. Tem seis livros publicados.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente aos sábados.
Contato: josuedasilvabrito1998@gmail.com

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