OS ABISMOS QUE NOS SEPARAM

Passaram 130 anos e ainda existe um “lugar” que nos é relegado nessa sociedade. Passaram 58 ou mais anos e ainda existe o “nosso quarto de despejo”. E ele está nos barracões das favelas, nos porões dos presídios, no postos precarizados de trabalho, na informalidade, ou mesmo, nos alojamentos das universidades. Dizem que houveram avanços, que a sociedade tem se diversificado e “empoderado” os “excluídos”.

Isso realmente é verdade? Porque entrar na universidade pode parecer a maior vitória? Mas quantos de nós ficaram no meio da estrada? Quantos se sentiram um sujeito “estranho” em cada espaço elitizado desse lugar? 

Cada passo dado parece um avanço na luta pela sobrevivência, mas acaba sendo também uma nova ferida carregada. Isso não é normal. São as tentativas de suicídio, os homicídios, os abortos ilegalizados, os assaltos, os estupros, as coerções, as violências psicológicas, os surtos, a fome. São as cicatrizes de uma vida inteira. Vidas interditadas.

E quanto ao choro engasgado? A palavra sufocada? A dor não cicatrizada? “Eu estou começando a perder o interesse pela existência. Começo a me revoltar. E a minha revolta é justa." (Quarto de despejo, p. 30, Carolina Maria de Jesus.)

Eu realmente não poderia ter encontrado melhor resposta para todas essas perguntas em outro lugar. Não teria condições de reunir todos os processos vividos e compartilha-los. Superar esse “lugar” é parte de um caminho maior. Ao fim e a cabo, só conseguirei reunir palavras para dizer: “Vivi, sobrevivi”.

João Lucas Nery
Graduando em História pela Universidade Federal de Roraima. Integra o grupo de pesquisa História Colonial e Ensino de História: Interlocuções com a História da África e dos afrodescendentes no Brasil.
e-mail: jl.nery16@gmail.com

Comentários

  1. Venho pensando em algo que, creio, encontra-se com seu texto. Hoje a sociedade está mais democrática. A escravidão, por exemplo, já foi antidemocrática e agora ela avançou, evoluiu. Antes somente "usprétu" eram escravos y hoje negros, brancos y todos da classe média alta para baixo podem ser (são) escravos...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas