Por que discutir e estudar gênero?



     Como construir o currículo escolar?  Quais os poderes e sentidos do estudo da História? Planejar um currículo que se silencie diante da realidade de muitos estudantes mulheres, homossexuais, lésbicas, transexuais, travestis, bissexuais, etc., vítimas da exclusão, transfobia, homofobia, ou um abrangente, aberto, sensível a realidade deles(as)? Equipa-los para as lutas sociais em prol dos seus próprios direitos e da coletividade por uma sociedade mais justa ou formar pessoas apáticas, com uma percepção indiferente a realidade que as cerca? Manter-se-á um ensino rijo, sem ouvi-las, de fato? 

     Gênero é um conceito fruto de um processo social, revelador do nosso cotidiano[1]. Todavia, não é uma abstração distante das nossas vivências. Teoria, temática transversal, trabalhá-lo, significa agir no campo das ideias, para um agir prático. Ideias devem ser debatidas. Ideias devem ser questionadas. Ideias não devem ser conformadas, sem serem refletidas, avaliadas. Como haverá mudanças se até a simples preposição delas é cerceada? 

     Devemos indagar, portanto, as relações entre às pessoas.Como disse Paulo Freire: “teoria sem prática vira ‘verbalismo’. Prática sem teoria, vira ativismo. Mas quando se une prática com teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade”. O mesmo Paulo em sua obra Pedagogia da autonomia afirma: “Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação [...] Faz parte igualmente do pensar certo a rejeição a qualquer forma de discriminação. A prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia”[2]

     Precisamos de um aparato teórico, para agir com o intuito de ocupar e transformar, criando novos espaços, travando lutas nas diferentes dimensões da vida social. Não faz sentido uma escola alheia a violência contra as meninas, que por extensão afeta também a vida dos meninos. Faz mais sentido assumir um papel liberador em busca de estabelecer uma revolução por equidade e justiça.



[1] CAMURÇA, Sílvia; GOUVEIA, Taciana. O que é gênero / 4º ed. Recife: SOS CORPO. Instituto Feminista para a Democracia, 2004. 40 p. (Cadernos SOS CORPO; v.1).
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (Coleção Leitura), p. 30




Referências

GOODSON, Ivor. Currículo, narrativa e o futuro social. In: Revista Brasileira de Educação, v. 12 n. 35 maio/ago. 2007, pp. 241 – 252.

COSTA, Suely Gomes. Gênero e História. (Cap. 12) In: ABREU, Martha; SOIHET, Rachel (Orgs.). Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003





João Lucas Nery
Graduando em História pela Universidade Federal de Roraima. Integrante do grupo de pesquisa Ensino de História e Brasil Colonial (GT - Compartilhando saberes: UFRR, UnB, UFRGS). Trabalha com a temática da escravidão, especificamente a escravidão negra na Amazônia. Em ensino com currículo, cultura escolar e ensino de história indígena. Apaixonado por Rita Lee, sonha um dia em torna-se hippie. Escreve aos sábados.
E-mail: jl.nery16@gmail.com

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