A FALÊNCIA DO LIVRO DIDÁTICO

Olá! Eu voltei. Quem é vivo sempre aparece, diz a sabedoria popular. Ah, faltou uma interrogação no título do texto (foi proposital?). Minha intenção aqui não é esgotar a discussão acerca da produção dos livros didáticos (o enfoque são os de História), mas sim problematizar algumas considerações e propor uma reflexão sobre. Minha leitura não é única, mas espero que abra um pouco de possibilidades. Historiador trabalha com indícios. Algumas perguntas: Ele é uma ferramenta falida? A crítica pela crítica vai resolver alguma coisa? Esse texto, portanto, é incompleto. Desculpem as lacunas, vazios e minha prolixidade.

“Advertência necessária
O tratamento dispensado na colônia portuguesa aos africanos escravizados, assim como sua forma de viver e sua resistência à escravidão, variou muito, tanto de uma região para outra como ao longo do tempo. Os dados apresentados neste capítulo têm o valor de uma abordagem genérica. Não se deve deduzir de sua leitura que as informações utilizadas se apliquem de forma homogênea a todos os escravizados e aos quase quatro séculos de escravidão na colônia portuguesa. É preciso considerar que existiram variações, seja de grupo para grupo, seja ao longo do tempo. Além dessa abordagem mais panorâmica, você verá, nos próximos capítulos de Brasil, situações específicas vividas pelos africanos e pelos afrodescendentes em diversos momentos de nossa história.”
(AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História em movimento. – 2. ed. – São Paulo: Ática, 2013. Conteúdo: v. 1. Dos primeiros humanos ao Estado moderno – v. 2. O mundo moderno e a sociedade contemporânea – v. 3. Do século XIX aos dias de hoje).

                        Escravidão envolve relações sociais extremamente complexas. A advertência é, de fato, necessária porque estamos falando de um continente múltiplo, etnicamente diverso, que forneceu durante 3 séculos pessoas a um comércio altamente lucrativo – o de africanos escravizados, por pelo menos 450 anos, na América portuguesa, tendo seu auge nos séculos XVII e XVIII. Independente desde 1822, o Brasil só aboliria a escravidão 28 anos depois. Além dos africanos, os portugueses escravizaram também as populações nativas – chamadas por eles de “índios”.

                     Motor da economia brasileira, esse comércio iniciou com Portugal (de forma muito exitosa), holandeses, depois ingleses (alemães até tentaram entrar, mas passam a Inglaterra, por 1) não formavam um Estado nacional moderno; 2) não possuíam colônias e entradas na África. – Ver “África Negra: História e Civilizações até ao século XVIII” [Tomo I], de Elikia M’Bokolo –. Essa instituição não só forma o Brasil como é ascensora de cidades europeias e inglesas até o século XIX. Ah, e é bom lembrar da participação nesse comércio triangular dos Estados Unidos, ainda colônia da Inglaterra, a partir do século XVIII (até o XIX), que enriquecera pomposamente com o tráfico transatlântico de escravos para o Brasil, por exemplo. A mão de obra escrava foi a base socioeconômica do período colonial brasileiro – Ver “Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial”, Fernando Novais –. Temos resquícios desse período até os dias de hoje. Uma conta que ainda não fechou.

                    Como recurso didático, o livro didático, é uma ferramenta que deve dá conta de tudo. Quando digo tudo é tudo mesmo: vestibular, ensino, produção acadêmica, etc. O modelo de “desenvolvimento” capitalista exige a “proatividade”, a acumulação de múltiplos conhecimentos para ser capaz de realizar diferentes tarefas, simultaneamente.

                  Por que o exemplo acima? O livro didático se torna no Brasil a materialização do currículo escolar. Um currículo permeado por intencionalidades, ele passa longe de ser um simples manual de instrução. De acordo com Flávia Eloisa Caimi[1], “o currículo é uma área contestada, é uma arena política” (2009, p. 2 apud Moreira e Silva, 1999, p. 21).  Nos últimos anos passou a ocupar espaço significativo na imprensa. Multiplicaram-se publicações que propõem “discussões” acerca da consistência de seu conteúdo. Esse é o grande problema apontado: o conteúdo dos livros didáticos. Sempre há de se tecer “a crítica” a respeito da sua elaboração. Criticado, seja por não aprofundar determinado tema, seja por propiciar debates estereotipados, ele é, atualmente, a principal ferramenta que o professor dispõe na sala de aula.

                     Esse mesmo profissional se vê diante do seguinte impasse: inovar no ensino trabalhando com eixos temáticos ou com a história integrada. Não é fácil trabalhar com a complexa proposta do ensino temático no âmbito escolar: excesso de alunos por turma, de classes assumidas pelo docente e o controle da gestão escolar, (“situações reconhecidas pelo próprio MEC”). É preciso cautela ao optar por essa modalidade. Pode-se, não com muitas dificuldades, efetivar a “transposição didática”, como conceituou a historiadora Circe Bittencourt[2], em sua obra “Ensino de História: fundamentos e métodos”, fazendo a tal ‘história integrada’, sem se dá conta disso. A interdisciplinaridade é uma proposta, sem dúvida, muito importante. Abrir espaços para o diálogo, articular fatos, eventos, conceitos, construindo um pensamento capaz de reavaliar a contextualização desses processos históricos, é uma maneira de permitir uma compreensão profunda do presente. Esse é um dos objetivos do ensino de história.

                     Os autores desse livro para estudantes do 2º ano [ensino médio], em alguma medida, dão possibilidades, dentro das suas condições de produção, de se estender esse debate. O mais importante: pluralizá-lo. É preciso que se compreenda quais as circunstâncias em que aquele ou outro livro didático foi produzido, o que nos leva a entender as condições de produção de cada autor.

                 Vivemos no país em que “O guia politicamente incorreto da História do Brasil”, escrito pelo jornalista Leandro Narloch, tornou-se um best seller. Livro como já apontara, o historiador e professor da UFMG, Renato Venancio, com gravíssimos erros de escrita e interpretação, além do uso desonesto de fontes. Zumbi dos Palmares, por exemplo, aparece como o herói negro malvado que “a esquerda e o movimento negro, elegeram” símbolo da luta antirracista,  que escravizava seus “irmãos” negros. Narloch se esquece que não há o reconhecimento da comunidade de historiadores especializados na área, de um suporte documental capaz de comprovar que Zumbi possuía escravos, por exemplo. Outro ponto relevante é não atentar-se para o contexto em que essa persona está inserida. História é contexto, filha e resultado das circunstâncias de seu tempo. O quanto perdemos utilizando a história como propagadora de estereótipos e preconceitos, não é mesmo? E por que não encarar o livro didático como um dos meios para se instrumentalizar os jovens estudantes, do ensino fundamental e médio, e não uma finalidade?





[1] Graduada em História pela Universidade de Passo Fundo (1986), mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (1999), doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006). Professora titular do curso de História e no programa de pós-graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo.
[2] Professora de pós-graduação na Faculdade de Educação da USP e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Possui graduação em História pela FFLH-USP (1967), mestrado (1988) e doutorado (1993) em História Social pela FFLH-USP.





Referências
ABUD, Kátia M. O Livro Didático e a Popularização do Saber Histórico. In: SILVA, Marcos da (Org.). Repensando a História. São Paulo: Anpuh/Marco Zero, 1986. P. 73-92.

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. - 2ª ed.  - São Paulo: Cortez, 2008.

ROCHA, Ubiratan. Reconstruindo a História a partir do imaginário do aluno. In: NIKITIUK, Sônia (org.). Repensando o ensino de História. São Paulo: Cortez, 2001, p.58. 





João Lucas Nery 
Graduando em História pela Universidade Federal de Roraima.
Integra o grupo de pesquisa Brasil Colonial e Ensino de História (GT - Compartilhando Saberes - UFRR/UnB/UFRGS). Trabalha com a temática da escravidão negra no Brasil, especificamente na Amazônia. Em ensino, com o currículo oculto e a cultura escolar. Lê uns livrinhos, escuta desde Milton, Cazuza a Janis Joplin. Sonha um dia em torna-se hippie.
e-mail: jl.nery16@gmail.com

Comentários

  1. Muito interessante sua abordagem. Realmente é preocupante a qualidade dos materiais didáticos e, claro, os best sellers com fontes questionáveis e que relativizam a verídica pesquisa da história.

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