História serve para causar desconforto: Por uma História do incômodo para um mundo em emergência

Quando se está muito bem acomodado, tranquilo, com a opinião advinda, muitas vezes, de preconceitos, vem velhinha chata da história nos tirar de nossa zona de conforto e mostrar que as coisas não são bem assim como se pensa... Quem nunca presenciou na universidade, na escola durante o ensino médio ou nas famigeradas redes sociais, uma discussão onde se vê os debatedores articulando a sua boa e velha “opinião”/“crítica” sem base, quando muito mal fundamentada. Citei as redes sociais, pois esse é um hábito frequente por lá... No momento em que se lê os comentários de alguns internautas, logo nota-se pessoas sem a noção da concretude que os cerca. Muitos com respostas prontas sobre o tema em pauta, fazem, na maioria dos casos, uma crítica que precede a compreensão da complexidade de determinado fato ou fenômeno. Outro exemplo: um presidenciável “salvador da pátria” que vive capitaneando medos, melindres da população, aposta numa agenda autoritária e de enaltecimento a violência. Não há que se negociar com violações, seja qual for seu tipo. Essa ‘coisa chata’ – a história – busca mostrar que o pensamento analítico não deve ser substituído por “achismos”.

O passado é um dos interesses centrais da história: o tempo é uma das suas singularidades (aquilo que justifica sua existência), seus objetos fazem parte de um processo, isto significa que esses objetos possuem, necessariamente, envolvimento com a temporalidade (todos são temporalizados) e também historicizados (devo recordar que contextualizar em história é tarefa imprescindível). Lembra daquela música do saudoso poeta Cazuza, “o tempo não para”? Pois é, não para mesmo. Nada está fora do tempo, nada escapa dele!

Bem, quando se fala desse homem envolvido pela temporalidade e do estudo desse passado, não é simplesmente ele por ele mesmo (como algo já superado, portanto, que deve ser deixado de lado, posto que já acabou e pronto), mas aquele problematizado. Sim, ela nunca olha para trás conformando o que já está posto como único ou imutável. Dessa forma, a postura da história em relação ao passado é sempre questionadora: da dimensão social, política, cultural e econômica.

Uma ‘chatinha’ mesmo! Afinal, para que, Deus, trazer à tona a vergonhosa prática de escravização nas Américas ou o genocídio causado pelo branco europeu aos povos que aqui encontraram quando do “descobrimento” do Brasil (logo eles, tão generosos... que trouxeram, segundo Varnhagen, “a luz da civilização europeia” a essas populações “bárbaras”). Que tipo de disciplina é essa que agora sugere estudar essa dita “civilização” a partir do ponto de vista dos chamados “bárbaros” e “selvagens”? Que absurdo! Mas é isso mesmo: ela propõe descolonizar a nossa percepção da realidade.

Por que sabemos tanto da história europeia e tão pouco da africana e indígena? Nossa história está intimamente ligada a África, e porque não estudamos o continente africano? Já sabemos que todo esse papo de que os portugueses “descobriram” esse território, que mais tarde veio ser chamado de Brasil, é uma grande furada. A arqueóloga Niède Guindon, defende a tese de que o homem chegou às Américas muito mais do que se pensa. Segundo ela, já existiam humanos em São Raimundo Nonato, Piauí, há no mínimo, 35 mil anos.

A verdade é que apesar da obrigatoriedade de se estudar a história e cultura afro-brasileira e indígena (leis 10.639/2003 e 11.645/2008, respectivamente), pouco sabemos efetivamente sobre a temática ainda. Sem desconsiderar eventos como a revolução francesa ou a revolução inglesa (a história presente nos currículos escolares, acadêmicos é super francesa), os quais estuda-se quase que exaustivamente na educação básica, por que não estudamos a fundo a história, tradição e cultura das sociedades indígenas, das sociedades africanas e sul-americanas não só as questões socioculturais como também suas lutas, conquistas (moro pertinho da Venezuela e pouco sei da sua história). A gente não tem ligação com eles?

O historiador Jaime Pinsky em seu livro “As primeiras civilizações” afirma que “por vezes, ver somente a aparência das coisas, é a maneira mais distante de conhecer sua essência”. De tudo isso até aqui, pode-se afirmar sem medo que a história não só nos auxilia a interpretar/entender o mundo em que vivemos, como também a não ficarmos só nas aparências das coisas. Ela propicia a chegada a essência delas. Vamos ficar nas discussões não aprofundadas e estereotipadas? Vamos permanecer nessa superfície (em alguma medida confortável) ou é a hora de aprofundar a consciência de si e da nossa extensão: o outro? Será se não precisamos criticar as premissas e aprender a ver, a observar as permanências, repetições e as rupturas? É possível fazer isso sem a história? História não é uma disciplina repleta de cronologias infindáveis, (embora este seja um recurso importante, para nos situar no tempo e espaço, assim como para fins didáticos), grandes eventos, líderes e heróis, toda adornada e prontinha: ela é um campo de conflitos. 

Diante dos impasses, precisamos encontrar as soluções, e a arma que dispomos para vencer os desafios do nosso cotidiano é o pensamento, sim é necessário aprender a pensar. Como já disse anteriormente, os historiadores sempre hão de observar situações-problema dentro de determinada narrativa. Sem questionar o que nos resta a fazer? Portanto, mais uma vez, é preciso problematização da vida social, para problematizá-la necessitamos de outro elemento: conhecer. Sem conhecimento, não poderemos refutar hipóteses, estabelecer conexões, identificar, comparar, traduzir e abstrair.


Com isso, não iremos nos conformar com o passado e encará-lo como morto. A afirmação de que a história é uma ciência morta, pelo fato de se ocupar do estudo do passado, é um grave equívoco. “O conhecimento histórico por si só carrega profundo potencial transformador”, afirmara Jaime Pisnky, e eu estendo: também libertador! Creio que a partir dele poderemos partir para a ação, isso passa por uma história não mais factual, repetidora de modelos, mas que provoque a reflexão, mexa com as pessoas e com a consciência delas.Certamente a principal serventia da história seja a de instrumentalizar pessoas para fazer escolhas, tomar decisões. Instrumentalizar para o que? Para a cidadania. Acredito que sem causar o desconforto não vai haver mudança. Como enfrentar as mudanças? O que é perder e o que é ganhar? Quais são as permanências? E as rupturas?

REFERÊNCIAS:
BARROS, José D'Assunção. Teoria da História: Princípios e conceitos fundamentais. . 2.ed., v.1. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 5.ed., 2ª reimpressão.São Paulo: Contexto, 2009. 
PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. 24. ed. 1ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010.


O tal João Lucas Nery é graduando em História na Universidade Federal de Roraima (2º semestre). Participa de um grupo de pesquisa sobre o período colonial no Brasil e o ensino de história (minha temática específica é a prática de escravização durante  a colônia), lê uns livros, escuta desde Janis Joplin a Milton Nascimento, é aspirante a historiador. Sonha um dia em tornar-se hippie.

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